A minha história - 1ª parte

09-03-2020

Para quem chegou por cá sem ter passado pelo website, começo por dizer que o meu nome é Daisy Vasconcelos, e não poderia deixar de partilhar que hoje, dia 09 de março, completo 57 anos.

Algo que sinto que é importante saberem, para compreenderem quem sou, e qual é a paixão que me move, é que eu fui obesa durante 26 anos

Vinte e seis anos a lutar contra os ponteiros da balança; 26 anos de uma relação ambígua com a comida/alimentação, que considerava ser a minha melhor amiga e, ao mesmo tempo, a minha pior inimiga, porque era a razão de boa parte das minhas frustrações.

Ao longo destes anos fui obrigada a emagrecer diversas vezes através de medicamentos inibidores de apetite, das mais variadas gerações, ansiolíticos (que os médicos juravam que reduziam o apetite), "mezinhas", shakes, chás, dietas e mais dietas (umas muito restritivas e outras, nem por isso). Era um tormento! Todas as vezes em que eu entrava numa dieta, dormia mal e sonhava imenso com a comida. Tinha pesadelos. Lembro-me de um sonho onde eu entrava num corredor, cujas paredes eram montras repletas de bolos e barras de chocolate. Eu passava, olhava e sofria, porque queria comer tudo o que via, mas não podia.

Com o passar do tempo, as coisas ficaram ainda piores. Desenvolvi inúmeros sabotadores internos e reforcei as minhas crenças limitadoras. Em muitos momentos, decidi que seria uma gordinha feliz e pronto! Contudo, cada tentativa de «felicidade» vinha acompanhada de um problema de saúde, e lá tinha eu de emagrecer, forçosamente, mais uma vez.

Quem me está a ler agora deve estar a pensar: «Mas que raios...! que está sempre a falar em emagrecer à força!» No meu percurso de transformação, descobri que existem dois processos distintos: emagrecer à força e emagrecer de forma sustentável.

No primeiro, usamos os mais variados artifícios externos para a perda de peso. O emagrecimento acontece, mas quando deixamos de usar os artifícios, voltamos aos antigos hábitos e, por isso, voltamos a engordar. Então, ficamos ainda mais tristes, com uma sensação de fracasso.

Já quando há uma transformação de mentalidade, conseguimos emagrecer e isso é sustentável, pois já não somos mais reféns da comida.

Isto será assunto para uma próxima publicação...

Durante muitos anos, eu não conseguia ver o que de facto estava a acontecer comigo. Eu sabia que havia algo errado, pois tinha uma fome que nunca ficava saciada. Fui a inúmeros médicos, das mais variadas especialidades. Explicava-lhes o que se passava, e lá saía eu com uma receita de ansiolítico. Passei a assumir a certeza de que era uma pessoa ansiosa e, consequentemente, a saber viver com isso. Ou seja, além de gorda eu agora era também ansiosa! Por um lado, era bom, pois eu já tinha uma óptima desculpa para comer o que eu quisesse, mas por outro, a ansiedade!

O interessante é que eu não me via obesa. Muitas vezes, não tinha paciência para entrar num provador e acabava por comprar a roupa apenas pelo número. Olhava a numeração, olhava a roupa e pensava, essa serve! Chegava a casa, tentava vestir-me, e a roupa nunca entrava... eram, pelo menos, dois números, a menos. E lá ia eu, fazer a troca! Em algumas situações, não conseguia trocar, porque a loja não trabalhava com numeração especial. Quanta frustração! O que fazia eu? Transformava as frustrações em bolos, barras de chocolate e pastéis, e comia-as com voracidade.

Claro que, com o passar dos anos, os problemas de saúde aumentaram. Encontrei em mim uma hipertensão que deixou muita gente aflita. Andar muito ou subir escadas passou a ser um sacrifício, brincar com a minha neta era outro problema. Eu até conseguia sentar-me no chão, mas quando precisava de me levantar a situação ficava complicada. Eu girava o corpo para um lado, para o outro, e levava imenso tempo para conseguir levantar-me, pois, os meus pobres joelhos já não aguentavam o peso. Mesmo com tudo isso, eu ainda teimava em não ver o óbvio. Aliás, eu via, mas não gostava e, por isso, comia ainda mais. Definitivamente estava viciada em comida, pensava eu.

E assim, os anos foram passando, com muitos medicamentos, muitos shakes, muitas desistências, muitas frustrações e muita comida. Até que, em 2018, num fim de semana no Algarve, a brincar com a neta, mudou tudo. Nessa altura, ela já havia percebido que a avó Daisy era boa para brincar, mas que não podia sentar-se diretamente no chão. Assim, ao pé do local das nossas brincadeiras, havia sempre um banquinho de madeira para que eu me pudesse sentar. Ainda assim, levantar-me estava a ser difícil.

Entretanto, fomos à praia e ela resolveu que eu seria a modelo para que ela exercitasse todo o seu talento de cabeleireira. Uma fofa! O meu marido, achando que a brincadeira tinha muita piada, decidiu fazer uma sequência de fotos que depois me mostrou. Quando vi nem queria acreditar... Meu Deus! Quem era aquela mulher enorme, cheia de pneus, a brincar com a Carol?! Não, aquela não podia ser eu. Foi um susto e um choque. Parecia ser a primeira vez que eu me via, de verdade.

Assim, quando voltámos para Lisboa, decidi fazer a minha matrícula num ginásio. Eu fugia de atividade física como o diabo foge da cruz, mas aquela imagem deixou-me em desespero. Mais uma vez procurei emagrecer à força, porém já não podia tomar medicamentos inibidores do apetite devido à hipertensão.

De início, não correu nada bem, pois eu tinha a certeza de que uma mulher com mais de 55 anos não ia emagrecer e, deste modo, eu já havia perdido a minha chance. A única coisa que eu queria era poder conseguir subir as escadas do meu prédio sem ficar ofegante.

Claro que com tantas crenças limitadoras, eu não tinha compromisso com o meu emagrecimento. Tanto que no dia em que fazia mais aulas eu comia mais pão, porque, afinal, eu merecia um prémio por ter sido tão dedicada a fazer algo em que, definitivamente, eu não acreditava e não gostava.

No verão seguinte, eu continuava obesa e a solução encontrada foi simples: nada de praia! Pronto, problema resolvido! Eu não seria obrigada a ver o excesso de Daisy nas fotografias da família.

Então, veio o segundo e definitivo choque que eu precisava para acordar. Depois de passar um dia inteiro sentada a corrigir textos, acordei no dia a seguir com uma enorme dor na coluna lombar. O que pensei: "Bem, com dor não vou ao ginásio!" Confesso que faltar por um bom motivo me dava um alívio. Porém, a dor não era fraca e só aliviava com o medicamento, mas quando o efeito passava, a dor voltava e eu mal conseguia andar. Fui ao médico. Ele pediu uma radiografia e disse que eu não deveria fazer atividade física (Que alivio, poderia faltar ao ginásio com um bom motivo!).

Entre a realização do exame e o retorno ao médico, a minha cabeça criou todo o caso: artrose em toda a coluna vertebral, nunca mais fazer exercícios, ficar gorda e ninguém mais falar nada, pois eu era doente. Uma sensação assustadora e reconfortante, em simultâneo.

No dia da consulta, lá fui eu e a minha «artrose» ao médico. Ele pegou no exame, leu e disse-me: «a sua coluna está ótima, essa dor deve ser pelo excesso de peso». Como assim, ótima?! Eu a morrer de dor e esse louco chama-me gorda! Era o que faltava, pensei!

Dei um sorriso sem graça e disse-lhe: «é, de facto, eu estou gordinha». Ele não achou muita piada e mandou que eu subisse na balança. Subi, ele viu o peso, perguntou a minha altura, pegou no telemóvel, fez uma conta e lançou o veredicto:

A SENHORA NÃO ESTÁ GORDINHA. A SENHORA TEM OBESIDADE DO TIPO 1 E ISSO É UMA DOENÇA.

Continua numa próxima publicação.

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